sexta-feira, 20 de março de 2020

O Jogo do Mundo

O livro Rayuela (traduzido em português como O Jogo do Mundo) de Julio Cortázar pode ser lido de muitas, quase infinitas (perdoem-me o falacioso arredondamento), formas. São 155 capítulos, sendo os primeiros 56 aqueles que o autor considera essenciais para o decorrer do livro. Enquanto leitora, posso folhear o livro comummente, da esquerda para a direita, em número de página e capítulo crescente, acabando a narrativa no final do capítulo 56 (sem grandes remorsos, diz Cortázar). Posso ainda seguir a ordem sugerida pelo autor: no final de cada capítulo, há um indicativo numérico para o número do capítulo seguinte. Ou posso ainda atirar a pedra do jogo, abrir o livro em polegar aleatório,  abri-lo numa passagem significativa, numa resposta ao jogo da vida, esperando um dia (ao fim de muitas respostas e muitos capítulos) ter folheado o livro todo.
Escolhi a segunda hipótese, esperando que a sugestão fosse leitura mais sôfrega. Comecei no capítulo 73. E como foi divertido saltar para capítulos dianteiros, sentido-me perto do final do volume no meu colo. Já fui várias vezes enganada pela tridimensionalidade do livro em mãos. Fecho o leitura, viro a lombada, vou conferindo a posição do marcador nas páginas, uma palmadinha nas costas por ter chegado a meio. Vou embalada pelo número de páginas lidas, sigo em frente, já faltou mais. Com o Rayuela era impossível saber a quantas andava. A pé coxinho atravessando Port D'Arcs, cada vez mais perto do coração de Horácio Oliveira, mas sempre a pé coxinho. Continuava a fechar o livro e a observar a posição do marcador nas páginas. Perguntava-me como iria acabar, se haveria algum capítulo que não teria um número no seu final, se voltaria ao 73, onde iniciara o jogo.
Pois bem, estou a escrever isto, consegui fechar o livro sem marcador. Chegada ao capítulo 131, é-me indicado o 58. Chegado ao final do 58, é-me indicado o capítulo 131. E agora? Um erro de impressão? É assim mesmo. O jogo, o mapa, o pé-coxinho, acaba com dois pés assentes no asfalto, um na casa de giz 58 e outro na casa de giz 131. Vou continuar por aqui, alternando os pés em cada um, esperando que o embalar do 131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-

131

58

131




58






131











58

não me deixe dormir e não acabe com
este
maravilhoso
livro.

Obrigada, Cortázar,
centro e trinta e um
obrigados.




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