domingo, 27 de setembro de 2020

Contar elefantes

Ter medo de trovoada é calcular a distância nos segundos que separam o clarão do ribombar das janelas. Saber um segundo no tempo de dizer a palavra "elefante": a distância fonética entre a tromba e a cauda da palavra é mais precisa do que qualquer relógio atómico.

Várias as noites em que adormeci embalada pela contagem de manadas, adivinhando-as já longe. Contar elefantes como final da tormenta.






segunda-feira, 18 de maio de 2020

De manhã, na janela dos meus pais, um pedacinho azul e calmo. À saída do carro, o silêncio distante, cortado por gritinhos mais perto. A meio caminho, em bicos de pés, verde esperança pendurado. Ali estava: o dorso azul perfeito.
Às vezes a maré estava tão baixa que conseguia caminhar vários quilómetros com água abaixo dos joelhos. Vários quilómetros. Toda a gente sabe que um quilómetro é inversamente proporcional à altura do caminhante e que a água multiplica distâncias (com a corrente suficiente, era possível percorrer uma maratona sem sair do mesmo sítio).
Esses dias eram perfeitos para apanhar conquilhas. Depois de provar a temperatura com os pés, cavava um buraco à beira-mar. Um buraco honesto com o meu pé pequenino. O mais difícil era coordenar o calcanhar com a próxima onda. Uma conquilha só se deixa aparecer em condições muito específicas. A areia tinha de estar húmida mas não submersa em água. O ideal era que uma onda beijasse a inclinação da cova e mergulhasse em pouca abundância. Já para fazer piscinas, a conversa era diferente: era preferível um buraco onde as ondas não conseguissem chegar e cavar fundo o suficiente até se encontrar ouro. Toda a gente sabe que água no meio do areal é ouro. Mas oásis à parte, as conquilhas não gostam de piscinas. Muitas me fugiram porque as tentei apanhar com óculos de mergulho uns quilómetros água dentro. As conquilhas gostam de beira-mar. Gostam de esperar pelas ondas pequeninas. Eu gostava de as apanhar, nesse instante perfeito entre ondas, acumulá-las num balde ou saco transparente. Lava-las com água, tirar a areia. Às vezes devolvíamo-las à agua, antes de voltar para casa. Às vezes, à mesa, apanhava as já não-conquilhas para dentro de um prato. 


Há anos que não como conquilhas mas às vezes exagero no alho e nos coentros. Sabe sempre a dia perfeito.


terça-feira, 12 de maio de 2020

Notas de iPhone #2

6. Uma mulher anda sempre com um lápis na mão para apontar as ideias mal lhe venham à cabeça.

2. Somos feitos de água mas conseguimos agarrar-nos uns aos outros.

3. Bambi na cidade caracol na alface. 
  
4. Um cão que ladra ao seu próprio eco. 

5. As nuvens a passar tão rápido: será o céu que gira ou somos nós o vento?


sexta-feira, 17 de abril de 2020



Habituado a viagens apressadas,
surpreende-se o Homem:
a paisagem consegue
estar quieta.

sexta-feira, 20 de março de 2020

O Jogo do Mundo

O livro Rayuela (traduzido em português como O Jogo do Mundo) de Julio Cortázar pode ser lido de muitas, quase infinitas (perdoem-me o falacioso arredondamento), formas. São 155 capítulos, sendo os primeiros 56 aqueles que o autor considera essenciais para o decorrer do livro. Enquanto leitora, posso folhear o livro comummente, da esquerda para a direita, em número de página e capítulo crescente, acabando a narrativa no final do capítulo 56 (sem grandes remorsos, diz Cortázar). Posso ainda seguir a ordem sugerida pelo autor: no final de cada capítulo, há um indicativo numérico para o número do capítulo seguinte. Ou posso ainda atirar a pedra do jogo, abrir o livro em polegar aleatório,  abri-lo numa passagem significativa, numa resposta ao jogo da vida, esperando um dia (ao fim de muitas respostas e muitos capítulos) ter folheado o livro todo.
Escolhi a segunda hipótese, esperando que a sugestão fosse leitura mais sôfrega. Comecei no capítulo 73. E como foi divertido saltar para capítulos dianteiros, sentido-me perto do final do volume no meu colo. Já fui várias vezes enganada pela tridimensionalidade do livro em mãos. Fecho o leitura, viro a lombada, vou conferindo a posição do marcador nas páginas, uma palmadinha nas costas por ter chegado a meio. Vou embalada pelo número de páginas lidas, sigo em frente, já faltou mais. Com o Rayuela era impossível saber a quantas andava. A pé coxinho atravessando Port D'Arcs, cada vez mais perto do coração de Horácio Oliveira, mas sempre a pé coxinho. Continuava a fechar o livro e a observar a posição do marcador nas páginas. Perguntava-me como iria acabar, se haveria algum capítulo que não teria um número no seu final, se voltaria ao 73, onde iniciara o jogo.
Pois bem, estou a escrever isto, consegui fechar o livro sem marcador. Chegada ao capítulo 131, é-me indicado o 58. Chegado ao final do 58, é-me indicado o capítulo 131. E agora? Um erro de impressão? É assim mesmo. O jogo, o mapa, o pé-coxinho, acaba com dois pés assentes no asfalto, um na casa de giz 58 e outro na casa de giz 131. Vou continuar por aqui, alternando os pés em cada um, esperando que o embalar do 131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-

131

58

131




58






131











58

não me deixe dormir e não acabe com
este
maravilhoso
livro.

Obrigada, Cortázar,
centro e trinta e um
obrigados.




segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020


Certa vez perguntei a uma amiga que percebia de hortas como saber o que plantar ao lado do quê ao que ela me respondeu se vai bem no prato vai bem na terra.




segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

Manual de instruções #1


Como apanhar pendente partícula de pó?

Primeiro - Fixar um (e só um) cotão brilhante que oscila para onde mandar o vento
Segundo - Fechar a mão em torno dessa partícula
Terceiro - Abrir a mão, observar as suas linhas e mais nada
Quarto e último - Aceitar que é impossível guardar pedacinhos tão belos e que o que nos pesa nos bolsos é nada mais do que vazio

Vazio esse que ocupa os interstícios entre coisas mas que nele contém o necessário para se ser coisa: luz, espaço e gravidade.