todas as manhãs
me surpreendo:
o sol continua
a brilhar
(por alguma
razão estúpida
imaginava uma
explosão)
domingo, 31 de maio de 2020
segunda-feira, 18 de maio de 2020
De manhã, na janela dos meus pais, um pedacinho azul e calmo. À saída do carro, o silêncio distante, cortado por gritinhos mais perto. A meio caminho, em bicos de pés, verde esperança pendurado. Ali estava: o dorso azul perfeito.
Às vezes a maré estava tão baixa que conseguia caminhar vários quilómetros com água abaixo dos joelhos. Vários quilómetros. Toda a gente sabe que um quilómetro é inversamente proporcional à altura do caminhante e que a água multiplica distâncias (com a corrente suficiente, era possível percorrer uma maratona sem sair do mesmo sítio).
Esses dias eram perfeitos para apanhar conquilhas. Depois de provar a temperatura com os pés, cavava um buraco à beira-mar. Um buraco honesto com o meu pé pequenino. O mais difícil era coordenar o calcanhar com a próxima onda. Uma conquilha só se deixa aparecer em condições muito específicas. A areia tinha de estar húmida mas não submersa em água. O ideal era que uma onda beijasse a inclinação da cova e mergulhasse em pouca abundância. Já para fazer piscinas, a conversa era diferente: era preferível um buraco onde as ondas não conseguissem chegar e cavar fundo o suficiente até se encontrar ouro. Toda a gente sabe que água no meio do areal é ouro. Mas oásis à parte, as conquilhas não gostam de piscinas. Muitas me fugiram porque as tentei apanhar com óculos de mergulho uns quilómetros água dentro. As conquilhas gostam de beira-mar. Gostam de esperar pelas ondas pequeninas. Eu gostava de as apanhar, nesse instante perfeito entre ondas, acumulá-las num balde ou saco transparente. Lava-las com água, tirar a areia. Às vezes devolvíamo-las à agua, antes de voltar para casa. Às vezes, à mesa, apanhava as já não-conquilhas para dentro de um prato.
Há anos que não como conquilhas mas às vezes exagero no alho e nos coentros. Sabe sempre a dia perfeito.
terça-feira, 12 de maio de 2020
Notas de iPhone #2
6. Uma mulher anda sempre com um lápis na mão para apontar as ideias mal lhe venham à cabeça.
2. Somos feitos de água mas conseguimos agarrar-nos uns aos outros.
3. Bambi na cidade caracol na alface.
4. Um cão que ladra ao seu próprio eco.
5. As nuvens a passar tão rápido: será o céu que gira ou somos nós o vento?
2. Somos feitos de água mas conseguimos agarrar-nos uns aos outros.
3. Bambi na cidade caracol na alface.
4. Um cão que ladra ao seu próprio eco.
5. As nuvens a passar tão rápido: será o céu que gira ou somos nós o vento?
sexta-feira, 20 de março de 2020
O Jogo do Mundo
O livro Rayuela (traduzido em português como O Jogo do Mundo) de Julio Cortázar pode ser lido de muitas, quase infinitas (perdoem-me o falacioso arredondamento), formas. São 155 capítulos, sendo os primeiros 56 aqueles que o autor considera essenciais para o decorrer do livro. Enquanto leitora, posso folhear o livro comummente, da esquerda para a direita, em número de página e capítulo crescente, acabando a narrativa no final do capítulo 56 (sem grandes remorsos, diz Cortázar). Posso ainda seguir a ordem sugerida pelo autor: no final de cada capítulo, há um indicativo numérico para o número do capítulo seguinte. Ou posso ainda atirar a pedra do jogo, abrir o livro em polegar aleatório, abri-lo numa passagem significativa, numa resposta ao jogo da vida, esperando um dia (ao fim de muitas respostas e muitos capítulos) ter folheado o livro todo.
Escolhi a segunda hipótese, esperando que a sugestão fosse leitura mais sôfrega. Comecei no capítulo 73. E como foi divertido saltar para capítulos dianteiros, sentido-me perto do final do volume no meu colo. Já fui várias vezes enganada pela tridimensionalidade do livro em mãos. Fecho o leitura, viro a lombada, vou conferindo a posição do marcador nas páginas, uma palmadinha nas costas por ter chegado a meio. Vou embalada pelo número de páginas lidas, sigo em frente, já faltou mais. Com o Rayuela era impossível saber a quantas andava. A pé coxinho atravessando Port D'Arcs, cada vez mais perto do coração de Horácio Oliveira, mas sempre a pé coxinho. Continuava a fechar o livro e a observar a posição do marcador nas páginas. Perguntava-me como iria acabar, se haveria algum capítulo que não teria um número no seu final, se voltaria ao 73, onde iniciara o jogo.
Pois bem, estou a escrever isto, consegui fechar o livro sem marcador. Chegada ao capítulo 131, é-me indicado o 58. Chegado ao final do 58, é-me indicado o capítulo 131. E agora? Um erro de impressão? É assim mesmo. O jogo, o mapa, o pé-coxinho, acaba com dois pés assentes no asfalto, um na casa de giz 58 e outro na casa de giz 131. Vou continuar por aqui, alternando os pés em cada um, esperando que o embalar do 131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-
131
58
131
58
131
58
não me deixe dormir e não acabe com
este
maravilhoso
livro.
Obrigada, Cortázar,
centro e trinta e um
obrigados.
Escolhi a segunda hipótese, esperando que a sugestão fosse leitura mais sôfrega. Comecei no capítulo 73. E como foi divertido saltar para capítulos dianteiros, sentido-me perto do final do volume no meu colo. Já fui várias vezes enganada pela tridimensionalidade do livro em mãos. Fecho o leitura, viro a lombada, vou conferindo a posição do marcador nas páginas, uma palmadinha nas costas por ter chegado a meio. Vou embalada pelo número de páginas lidas, sigo em frente, já faltou mais. Com o Rayuela era impossível saber a quantas andava. A pé coxinho atravessando Port D'Arcs, cada vez mais perto do coração de Horácio Oliveira, mas sempre a pé coxinho. Continuava a fechar o livro e a observar a posição do marcador nas páginas. Perguntava-me como iria acabar, se haveria algum capítulo que não teria um número no seu final, se voltaria ao 73, onde iniciara o jogo.
Pois bem, estou a escrever isto, consegui fechar o livro sem marcador. Chegada ao capítulo 131, é-me indicado o 58. Chegado ao final do 58, é-me indicado o capítulo 131. E agora? Um erro de impressão? É assim mesmo. O jogo, o mapa, o pé-coxinho, acaba com dois pés assentes no asfalto, um na casa de giz 58 e outro na casa de giz 131. Vou continuar por aqui, alternando os pés em cada um, esperando que o embalar do 131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-131-58-
131
58
131
58
131
58
não me deixe dormir e não acabe com
este
maravilhoso
livro.
Obrigada, Cortázar,
centro e trinta e um
obrigados.
segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020
segunda-feira, 27 de janeiro de 2020
Manual de instruções #1
Como apanhar pendente partícula de pó?
Primeiro - Fixar um (e só um) cotão brilhante que oscila para onde mandar o vento
Segundo - Fechar a mão em torno dessa partícula
Terceiro - Abrir a mão, observar as suas linhas e mais nada
Quarto e último - Aceitar que é impossível guardar pedacinhos tão belos e que o que nos pesa nos bolsos é nada mais do que vazio
Vazio esse que ocupa os interstícios entre coisas mas que nele contém o necessário para se ser coisa: luz, espaço e gravidade.
terça-feira, 21 de janeiro de 2020
sábado, 18 de janeiro de 2020
Cidade Visível
Sou abordada na rua por alguém que me pergunta como chegar a X:
- Sabe dizer-me como chegar a X?
Responder parece-me impossível. Nunca parti do ponto onde me encontro para chegar até X. Já estive em X, sei onde fica. E já parti daqui para muitos outros lugares. Mas não, a resposta parece-me impossível.
-O melhor será dirigir-se até Y, é ali já à frente, e perguntar a alguém como chegar até X a partir daí.
Assim o faz. Agora em Y, o nosso sujeito perdido perguntará novamente como chegar a X:
- Sabe dizer-me como chegar a X?
E alguém responderá em titubeante instrução:
- O melhor será dirigir-se até Z, é já ali à frente, e perguntar a alguém como chegar até X a partir daí.
E agora em Z, abordará novo transeunte (tão perdido quanto ele) que lhe indicará um novo meio caminho. Assim vagueará o nosso Aquiles, cada vez mais perto, mas sem nunca alcançar o seu destino. Nesta sua jornada, percorrerá toda a cidade, medida pelas verdades de cada um. Não há unidade de medida universal: cada um dos seus habitantes tem seu próprio passo e a sua própria história. Nenhum deles conhece os nomes das ruelas ou os números das portas. Os percursos X-Y, Y-Z e assim por diante são ditados pelos signos que cada um deles reconhece: varanda tropical, mercearia cidreira, raíz choruda, saco esquecido, cão maldisposto.
Assim vagueará o nosso Aquiles, olhando em frente e esquecendo-se dos seus meios percursos por falta de girassóis vigilantes ou nuvens com forma de tartaruga.
E alguém responderá em titubeante instrução:
- O melhor será dirigir-se até Z, é já ali à frente, e perguntar a alguém como chegar até X a partir daí.
E agora em Z, abordará novo transeunte (tão perdido quanto ele) que lhe indicará um novo meio caminho. Assim vagueará o nosso Aquiles, cada vez mais perto, mas sem nunca alcançar o seu destino. Nesta sua jornada, percorrerá toda a cidade, medida pelas verdades de cada um. Não há unidade de medida universal: cada um dos seus habitantes tem seu próprio passo e a sua própria história. Nenhum deles conhece os nomes das ruelas ou os números das portas. Os percursos X-Y, Y-Z e assim por diante são ditados pelos signos que cada um deles reconhece: varanda tropical, mercearia cidreira, raíz choruda, saco esquecido, cão maldisposto.
Assim vagueará o nosso Aquiles, olhando em frente e esquecendo-se dos seus meios percursos por falta de girassóis vigilantes ou nuvens com forma de tartaruga.
quinta-feira, 9 de janeiro de 2020
Notas de iPhone #1
Criei este blog como exercício mnemónico. Vejam bem: às
vezes, deambulando, penso em voz alta. Melhor: sempre penso. Quando não falo em
voz alta, penso em voz alta. Penso nas horas, no jantar, no tempo, nos
contratempos. Não penso para onde vou, isso não, ou logo a magia do andar
determinado se perde nos leigos passos. Movo-me porque sei para onde vou,
apesar de só lembrar outras coisas. É que encontrei uma forma de combater
tantos afazeres: a lista.
Sempre que penso algo importante, procuro um papel para anotar
tal coisa. Pode ser falta de courgete para sopa, um filme para ver com o Mariano,
uma morada bonita ou um novo poeta louco. Aponto porque me acalma, aponto para
não ter de lembrar. A palavra escrita vive e a palavra falada pode ser nova.
Tenho três tristes cadernos
porque pensei sistematizar meus tigres pensamentos em três categorias
diferentes: tarefas, citações e ideias. Tenho três cadernos mas todos têm
tarefas, citações e ideias. Tenho ainda a aplicação Notas do telemóvel, guardado
no bolso longe do coração mas perto da mão destemida. Às vezes esqueço-me do
que pensei anotar, outras vezes a palavra apontada perde intensidade face ao
diálogo mental. Mas assim é: tento apontar tudo o que me pareça importante.
E é importante misturar agriões com Rimbaud, vermelho com
Llansol, datas com soluços. Daí nasce uma nova linguagem.
Criei este blog como exercício mnemónico. Vou partilhar
algumas coisas que penso acompanhadas de coisas que rabisco. Deixo-vos com uma bonita
lista de Clarice Lispector retirada daqui. Perdoem-me por não ser Clarice.

Subscrever:
Mensagens (Atom)








